terça-feira, 26 de maio de 2026

DO ACERVO FAMILIAR: MEMÓRIAS DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL Cresci ouvindo a história do dia em que a esposa e os cinco filhos de meu tio-bisavô, Virgílio de Sá Pereira, foram presos e quase fuzilados na Alemanha em inícios da Primeira Guerra Mundial por terem sido confundidos com espiões russos. O meu tio Virgílio que era Desembargador, correspondente ao que seria hoje, um Ministro do STJ, mantinha os cinco filhos estudando entre a França e a Alemanha. Inclusive, em tempos nos quais não havia tantos "penduricalhos", ele declinou do convite do então Presidente da República, Arthur Bernardes, para a sua indicação a uma vaga no Supremo Tribunal Federal. A razão era a de que um Ministro do STJ poderia continuar a trabalhar como parecerista em litígios que não corressem no Distrito Federal, o que era vedado aos Ministros do STF. E como o mais importante para tio Virgílio era a educação esmerada dos filhos em solo alhures, o que lhe exigia trabalhar à exaustão para auferir altos recursos, eis que perdemos mais um pernambucano no Excelso Pretório. Mas, voltemos ao seu terrível drama. Dois meses antes, tio Virgílio havia instalado a família na cidade de Wiesbaden, região do Reno, estando lá morando, a sua esposa, Maria do Carmo, e os seus filhos, Angelita, Eucharis, Cléa, José e Ceres. Menores com 18 (a maioridade civil, à época, era a partir dos 21 anos), 15, 12, 8 e 5 anos de idade, respectivamente. Pois bem, essa senhora junto a suas crianças foram presas, jogadas em um presídio com as vestes de presidiárias onde ficaram por 2 dias à espera de serem fuziladas por espionagem. Ao verificarem em seus pertences que eram brasileiras, foram jogadas em um trem rumo a Hamburgo onde foram acolhidas na chancelaria brasileira e, ato contínuo, enviadas para Amsterdã. A Alemanha, terra de filósofos e altos juristas, era um país muito caro a tio Virgílio, tendo ele lá vivido à época na qual elaborou o projeto para um novo Código Penal, o conhecido projeto Sá Pereira. Encontrei o jornal que narrou este martírio em sua primeira página, o Diário carioca "A Época", edição de 19 de setembro de 1914. O que fica claro diante deste episódio nefasto, é que a Alemanha antes de Hitler, já era a Alemanha de Hitler, estava apenas à espera de sua assinatura ou da de um espírito congênere...

Nenhum comentário:

Postar um comentário