Jus est Ars Boni et Aequi
terça-feira, 26 de maio de 2026
quinta-feira, 10 de julho de 2025
LEI FRANCESA CONTRA O TABAGISMO
Foi publicada, recentemente, uma Lei na França que proíbe o fumo de cigarros em espaços públicos tais como parques, praias e pontos de ônibus. Gosto demais da França e da cultura francesa, mas um senão pra mim sempre foi o tabagismo local.
Você sai às 8 horas da manhã para ir ao trabalho e ao invés de respirar o ar fresco da aurora, já começa a receber baforadas de fumaça de cigarros desde a porta do seu prédio. E não pára por aí, pois essa inalação vai se perpetuando pelas ruas e boulevares.
Essa cultura do cigarro não está circunscrita às pessoas mais velhas, que foi tão influenciada pelo cinema noir no qual ter um cigarro entre os dedos gerava dividendos em sedução e charme. Mas alcança, e muito intensamente, os jovens. Vejo moças e rapazes belos e saudáveis tragando como se não houvesse amanhã, ainda que façam tanto exercício como caminhadas e cooper. Chega a ser deprimente.
Fico pensando o quanto médicos pneumologistas têm trabalho a fazer na França. Tanto que a expectativa de vida é mais baixa entre os franceses do que entre os seus vizinhos como a Alemanha e a Grã-Bretanha.
Essas fotos aqui postadas são de um belo torneio que houve no Grand Palais em fins de março deste ano. Sendo próximo de minha Chambre de Bonne, acorri para o local sem pestanejar, mas fiquei atônita quando vi os próprios atletas montando seus puro-sangue com um cigarro entre os dedos.
O tabagismo é uma prática da cultura indígena e a impressão que dá é que em Paris se vive em eterna pajelança.
Penso que a manutenção dessa cultura do cigarro tem muito a ver com a ansiedade. Sim, viver o dia a dia em Paris no esquema métro-boulot-dodo, também não é nada fácil e a Europa, França incluída, está longe de proporcionar aos seus nacionais as benesses do antigo Welfare State. A crise bateu na porta de todo mundo e o país da égalité não escapa das dificuldades e desafios que grassam o planeta.
Mas, a nova Lei é um respiro (sem fumaça) para que se mude esse estado de coisas no que diz respeito ao fumo de cigarros (os eletrônicos continuam liberados). Ainda que a proibição não alcance os terraços dos Cafés, porque isso, no momento, seria como negar as cores da bandeira francesa 😄...
segunda-feira, 15 de janeiro de 2024
BBB E VIOLÊNCIAS (DISPUTAS) DE GÊNERO: O CASO YASMIN BRUNET
Apesar de ser uma crítica incontornável de programas como o BBB que se eterniza no Brasil por ser uma das produções mais lucrativas, se não a mais lucrativa da emissora Rede Globo, não pude ficar alheia às reportagens que vem sendo veiculadas na Internet, mais especificamente no site de notícias Uol, acerca dos ataques e polêmicas envolvendo a filha da modelo Luísa Brunet, ícone de beleza e sensualidade no Brasil dos anos 80 e 90 do século passado, quando não existiam nem redes sociais e nem reality shows.
A filha em questão é a, também, modelo Yasmin Brunet, que Luísa se esforçou tanto para que fosse uma modelo internacional em sua adolescência, que se qualificou (formou-se em Cinema pela New York University), mas que ficou mais conhecida por ter se casado com um famoso esportista. Pois bem, Yasmin, não mais uma jovenzinha encabulada, mas uma mulher plena e exuberante, ressurgiu no fatídico programa, que se não presta a nada, ao menos serve para escancarar a misoginia e as violências que acometem as mulheres no Brasil. Para começar, revela o quanto uma mulher bela no Brasil, mais do que estar em uma posição privilegiada, está em situação de vulnerabilidade. O quanto, mais do que desejo, desperta ódio e inveja e para surpresa geral, bem menos das outras mulheres do que dos...homens! E um deles, imbuído de desejo e ódio ao objeto de seu desejo, tem mirado a moça com artilharia pesada.
Falar que ela é "esquisita", "velha" é o de menos... A violência saiu da crítica ao corpo (pelo agressor desejado e meio de vida da modelo), para o escarnecimento de sua condição psicológica. Tem-se diagnosticado as práticas, sem sombra de dúvidas, machistas, como "coisificação" da mulher. A meu ver, esse diagnóstico é impreciso e superficial. O que estamos assistindo é a uma luta pelo poder. Para além da coisificação, o poder erótico emanado pelo corpo de Yasmin levou o rapaz a agredir não apenas o seu corpo, mas a desdenhar dos seus sofrimentos psíquicos (compulsão alimentar), esperando com isso que o seu corpo se deforme, ou seja, perca o poder que exerce sobre o agressor. O processo todo, portanto, não se trata de mera "coisificação", redução de uma pessoa a coisa, mas de agressão a um corpo vivo (não coisa inanimada), o que, portanto, inclui a sua anima (alma). A grande questão é como se lida com esse poder erótico exercido por esse corpo feminino: nas sociedades machistas, não com respeito, admiração e autocontrole, mas com violência, já que todo e qualquer poder feminino deve ser aniquilado. Para não se sentir a esse poder submetido e, no caso em tela, humilhado por ser a esse corpo interditado, trava-se uma luta que vai desde agressões verbais e assédio moral (o que está sendo perpetrado contra a moça), passando por agressões físicas e chegando à violência sexual.
Espera-se que as violências contra Yasmin sejam estancadas no primeiro estágio.
sábado, 6 de agosto de 2022
"AVE LIBERTAS" - SOCIEDADE ABOLICIONISTA FORMADA EXCLUSIVAMENTE POR MULHERES NO RECIFE EM 1884.
Se a mulher é o negro do mundo e se identifica com todo tipo de opressão e escravidão, as mulheres pernambucanas não foram infensas ao problema do escravagismo e criaram no Recife, em abril de 1884, a sociedade "Ave Libertas' com fins de militarem na luta abolicionista. A sociedade foi devidamente registrada em cartório em setembro de 1884.
As senhoras pernambucanas das classes mais abastadas junto às das classes menos favorecidas, propunham-se a cooperarem com a abolição da escravidão no Brasil. Dentre as suas práticas estavam a compra de Cartas de Alforria (compraram 200 delas) e o compromisso de não terem escravos em suas propriedades e de modo algum fazerem uso de qualquer serviço de natureza escrava. Para os já alforriados, as senhoras, voluntariamente, promoviam cursos profissionalizantes e de alfabetização.
A sociedade "Ave Libertas", fundada no Recife, espalhou-se por todo o Brasil com inúmeras filiais, todas integradas e dirigidas apenas por mulheres.
Quatro anos após a sua fundação o seu objetivo abolicionista foi legalmente alcançado em 13 de maio de 1888.
Mas, por toda a parte do Brasil e do mundo, em pleno século XXI ainda se vê, agrilhoados, negros e mulheres escravos...
quinta-feira, 4 de agosto de 2022
JULGAMENTO INSÓLITO: O PAPA FORMOSO MORTO, PROCESSADO E CONDENADO
Julgamentos de animais, julgamento de objetos... Mas há algo mais insólito do que o julgamento seguido de condenação de uma pessoa morta? E de corpo presente? Pois esse fato já se deu. O réu? Um Papa defunto e exumado! Trata-se do caso célebre alcunhado de "Sínodo do Cadáver". Vamos aos fatos...
O caso medonho se deu durante a Idade Média, no séc. IX e foi praticado por uma Papa: Estêvão I.
Estêvão I acusou o seu antecessor, o Papa Formoso, então já morto há nove meses, de ter cometido os crimes de perjúrio, de ter exercido o ofício de bispo quando ainda era leigo e de ter tentado apoderar-se do trono do papa João VIII quando este ainda era vivo.
De modo que o julgamento fosse levado a cabo, o corpo do Papa Formoso foi exumado, paramentado com os ornamentos e as insígnias papais e entronizado na Basílica de São João de Latrão. O Papa Estêvão I, de pé em frente ao trono e com o dedo em riste, teceu o seu libelo acusatório diante de um Papa imóvel e resignado em sua condição que não pronunciou uma só palavra e nem se queixou de nada. O Papa Formoso foi julgado culpado pelo juiz que era o próprio Papa acusador. Impossibilitado de cumprir com a pena máxima, a pena de morte, o Papa Estêvão cortou-lhe três dedos da mão direita, usados para dar as bênçãos, declarou todos os seus atos e ordenações inválidos e enterrou-o no cemitério dos estrangeiros. Ainda não satisfeito, desenterrou-o e sacudiu o seu corpo às águas do rio Tibre.
O fato gerou comoção entre os romanos que começaram a dizer estar havendo milagres nos locais por onde o corpo do Papa percorria sob e sobre as águas. O Papa Estêvão acabou sendo preso e morreu estrangulado na prisão. O seu sucessor, o Papa Teodoro II anulou o sínodo do cadáver e uma vez encontrado o corpo do Papa, mandou que este fosse enterrado com todas as honras na Basílica de São Pedro. Teodoro II baixou uma lei canônica proibindo o julgamento de pessoas mortas.
Quanto ao fundamento jurídico da anulação do julgamento post-mortem do Papa Formoso este não residiu no fato de ele já estar morto, mas sim, por não ter tido direito à defesa...
Andrea Campos
terça-feira, 2 de agosto de 2022
PENA das GALÉS e CANOAGEM: Quem quer ir pra GALERA?
Assistindo à uma belíssima prova da Canoagem, lembrei-me da Pena das Galés.
A pena das Galés era uma pena de trabalhos forçados prevista nas Ordenações Portuguesas e que vigoraram no Brasil durante todo o período colonial e mesmo após a Independência.
Geralmente era cumprida nas Galés, barcos à vela que se utilizavam da força propulsora de corpos humanos a fim de ganharem velocidade. Os remadores, quando apenados, remavam com correntes e grilhões nos pés, sendo açoitados se diminuíssem o ritmo. Apesar de ser uma pena a ser cumprida por tempo determinado, não sendo perpétua, muitos condenados acabavam morrendo de exaustão, pois remavam dia e noite com alimentação precária e pouco descanso. As Galés eram também chamadas de "Galeras".
A Constituição do Império de 1824, aboliu as penas cruéis, dentre as quais a das Galés, mas o Código Criminal de 1830 manteve a sua aplicação, o que não foi declarado inconstitucional por aplicar-se "apenas" aos escravos, não aos homens livres...
Em 1890, finalmente, o Código Penal da República extirpou a pena das Galés de nossa Ordem Jurídica.
Hoje, extinta a malfadada Pena das Galés, temos a alegria de admirar a estética do remo como esporte, quase um balé que revela de forma sublime a potência do corpo humano.
E, então, quem vai pra "Galera"?rs




